Um dilema de consciência

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A liberdade como expressão de um mundo civilizado.

Não falemos do conceito que a maioria das pessoas tem sobre liberdade. Ser livre não é outra coisa, para elas, do que fazer aquilo que a cada um mais apeteça; se está bem ou mal feito, isso não é o que importa, como tampouco é levado em conta quando lhes ocorre não fazer nada.

A liberdade se diferencia do livre-arbítrio pelo fato de que, enquanto a primeira tem sua expressão no externo, o último a tem no interno.

A liberdade de culto, de palavra, de comércio, como a de caráter político, social ou econômico, são produtos de uma manifestação que transcende o foro interno do homem. Essa liberdade é requerida por uma necessidade lógica da convivência humana e é, ao mesmo tempo, imprescindível para que as faculdades do indivíduo encontrem campo mais propício para seu desenvolvimento e função. Condená-lo a suportar uma opressão que o prive de sua liberdade é submetê-lo a um virtual embrutecimento.

O livre-arbítrio, enquanto não se projete para o externo, é inatacável e insuprimível. Pode um homem ser privado de sua liberdade, não se permitindo à sua pessoa mover-se à vontade, porém o livre-arbítrio continuará atuando internamente, já que ninguém poderá impedir a atividade que os pensamentos possam desenvolver dentro de sua mente. Cervantes, por exemplo, quando concebeu e escreveu no cárcere a famosa obra em que sintetizou boa parte das observações que havia feito sobre a psicologia humana, e que o imortalizou na alma de seus semelhantes, deu uma prova evidente de que não havia sido privado do livre uso de suas faculdades mentais.

Não obstante, o livre-arbítrio, ou seja, o exercício da razão em correspondência direta com as demais faculdades do sistema mental, pode ser eclipsado, quer dizer, reduzido ao mínimo e até anulado, se o homem é privado, desde a infância, de promover o livre jogo das funções que concernem à sua inteligência, pois é obrigá-lo a fechar sua mente a toda reflexão útil, sobrevivendo em consequência, repetimos, a atrofia de suas faculdades e o debilitamento da razão até ficar anulada. Temos visto isso na Europa, nessas gerações que nasceram exclusivamente para servir a um só fim: adestrar-se como soldados e morrer nas frentes de batalha.

Não houve para eles liberdade nem livre-arbítrio, já que ambas as coisas foram suprimidas, sem dúvida porque isso convinha aos planos daqueles Estados que hoje os enviam às mais horríveis matanças*.

Desde há um tempo que quase poderíamos dizer imemorial, a sociedade humana estabeleceu, no conjunto de suas leis, para suprimir o delito, a privação da liberdade. A delinquência, geralmente identificada na criminalidade, só foi castigada com a privação, imposta ao indivíduo, de todas as prerrogativas no uso e gozo de sua liberdade.

Pois bem; as nações e os povos dominados pela opressão dos que os submetem pela força das armas têm a mesma sorte daqueles que incorrem em falta. A inocência e a honradez recebem o mesmo tratamento. Para o conquistador, o povo vencido é qualificado como delinquente. Deixa de gozar do mínimo amparo a seus direitos e, à semelhança dos que são castigados nos cárceres por haverem cometido graves infrações às leis, deve padecer os mais cruéis sofrimentos por faltas em que jamais incorreu.

Não deixa de ser um paradoxo o fato de aqueles que cometem os mais sangrentos crimes em tempos de guerra se acharem em liberdade, enquanto os que teriam preferido morrer a consumar o menor atentado contra seu semelhante — e somam milhões — se veem na situação em que deveriam encontrar-se os primeiros.

É possível, em tais condições, estabelecer uma ordem permanente no mundo? Por outro lado, pretender impor uma conduta única à humanidade é querer mecanizar o espírito e reduzir o homem à categoria de um autômato; em outras palavras, é submergi-lo na inconsciência mais temerária e perigosa.

* N.T.: Este artigo foi publicado em agosto de 1941.

A liberdade humana, dentro da estrutura das leis que gravitam sobre a consciência do indivíduo, é a mais preciosa conquista da civilização atual. O dilema é claro e terminante: ou se aceita o triunfo da barbárie, com os povos se confessando culpados de todas as agressões cometidas pela delinquência, passando, por conseguinte, a ser cativos dos próprios delinquentes, ou se proclama o triunfo da civilização, que é o da sensatez, e se tomam todas as medidas para rechaçar o mal e trazer de volta aos foros da razão aqueles que, à margem dela, contam com a conquista do mundo pelo cerceamento dos atributos mais caros para a dignidade humana.

Chega-se a pensar que a opção já está feita, a julgar pela marcha dos acontecimentos. Os dias futuros dirão se as páginas que a História reservou para a nossa época haverão de ser escritas por mandado da força ou se serão ditadas pela razão das consciências livres.

Carlos Bernardo González Pecotche  Coletânea da Revista Logosofia Tomo II

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