/Toxtex alheio é mais gostoso//

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/Toxtex alheio é mais gostoso//

Sentávamos eu e meu amigo na primeira carteira. Foi assim durante três anos das nossas vidas escolares. Ele estava lá por que fazia muita asneira no fundão, e eu para meu ‘’maior aproveitamento escolar’’. Naquele lugar onde ninguém queria sentar, nos tornamos amigos. Dois estrangeiros: Um deficiente físico e um extraterrestre das longínquas terras pastorais de São Sebastião da Grama.

 

Certa vez antes do intervalo ser anunciado, ele tirou uma forma triangular não-identificada de dentro da sua mochila, que com a luz incidindo sob o alumínio que embrulhava, fortalecia minha certeza de que aquele cara do meu lado, era um ser esquisito, estranho, estrangeiro, cheio de rugas, que contava piadas estranhas e mordazes. Enfim, um alien.

– O que é? Perguntei intrigado.

– Toxtex, tá ligado mano? Pão de forma, com queijo e presunto, tudo feito na chapa? Meu pai faz para mim e para o meu irmão, todo dia de manhazinha, antes da gente sair.

Toxtex!? O cara realmente trouxe um Toxtex!? Aquele sanduba do-balaco-baco que meu pai faz quando não tem nada para comer de noite!? Aquele lanche feito naquela mesma sanduicheira branca, que quando fica pronto acende a luz verde para sair o cheirinho de mussarela quentinha!?

Muitos chamam ele de misto-quente, ‘’mistinho’’ como dizem as tias por aí esbanjando simpatias.  Mas o nome dele é, e sempre será, Toxtex.

A partir daquele dia, passei a criar tal desejo por aquele embrulho triangular laminado. O intervalo passou a ser um momento de sedução, quando teria uma possibilidade de experimentar um pedaço, um naco que fosse para matar toda aquela vontade que me comia por dentro.

Minha irmã e eu sempre levávamos guloseimas industrializadas: gominhas Fini, disputadas bolachas Negresco ou Bono, e se não tinha nenhuma delas, a gente ia de Fandangos ou Club Social mesmo. Não gostávamos de trazer nada feito em casa, por que esfriava até chegar a hora do intervalo.

Mas este tal de Toxtex fazia minhas lombrigas borbulharem, por que minha memória paliativa sabe como é a crocância do pão tostado, qual sensação os dentes têm quando vencem a textura dourada do pão amanteigado.

O cheirinho do tomate quentinho troca uma ideia com a imagem daquele queijo derretido pelas bordas afora. Assim o mundo fica mais bonito.

Enquanto ficava remoendo nesta gulosa fantasia imaginativa, minha língua delirava, respondendo aos impulsos na forma líquida de infindáveis ondas de saliva.

Anos depois contando estes episódios para este meu amigo, ele me vem com um detalhe revelador e triste: O Toxtex sempre foi devorado frio, para o desmanche de toda a ilha da fantasia de minha fértil imaginação gastronômica, já que o trajeto Grama – São José demora algumas horas. Imaginem, das 7 da matina até a hora do intervalo.

O Toxtex do vizinho é muito mais crocante, e aquela tua Negresco é tão entediante. Por isso ele parece um pouco mais contente, mas seu misto havia sido feito matinalmente.

E quando chega a hora de comer, ele parece estar muito mais feliz do que você. A casquinha aparenta estar muito mais crocante, do que aquele que se lembra de ter devorado no restaurante.

Invejoso, o Toxtex alheio parece muito mais gostoso. Teu olho gordo remoendo até cansar. E a vontade de pedir um pedaço te provocando sem parar.

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