A criança que um dia fomos

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Existe um ser que frequentemente temos esquecido. Esse ser é a criança que cada um de nós foi, que nos proporcionou os melhores dias da existência e a quem devemos grande parte do que agora somos.

Podemos pensar que o adulto é a continuação da criança. Na vida adulta, quais são os que tributam a homenagem de seus sentimentos a essa criança que só vimos com os olhos da inocência? No entanto, quanto suaviza os duros transes da vida a evocação dessa terna idade, sobretudo quando devemos cruzar caminhos infectados de perigos!

É necessário recordar a criança que um dia fomos

Quem pensa nessa criança e a contempla através de suas recordações, observando-a em suas brincadeiras, em seus pensamentos, em suas inclinações e em sua inocência, verá quanto tem a aprender com ela e quanto lhe deve. Mais ainda: quanto deveria conservar daquele pequeno ser para que hoje, grande em tamanho e em idade, lhe seja permitido pelo menos experimentar algumas daquelas inocentes, porém gratas sensações que deram à sua vida as melhores horas.

Seria bom que cada um recordasse essa criança. Que a recordasse muito, porque nessa recordação vai implícito o enlace da atual existência com a que se foi, pois o esquecimento destrói não só o vínculo que as une, mas também a própria sensibilidade.

Se esquecemos nossa própria criança, esqueceremos também o jovem e, sucessivamente, o que temos sido em cada idade. Assim se irá esfumando no esquecimento, sem que sintamos, lentamente, toda a nossa vida.

São muitas as reflexões que acodem à mente quando a recordação converge para a criança; mas é necessário evocá-la com frequência, para que nos inspire coisas sobre as quais até aqui não havíamos pensado.
Texto extraído do livro Diálogos, pág. 173

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