/Na plenitude do piano //

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/Na plenitude do piano //

Dentro desta solidão, preso em mim no quarto de dormir, o piano me espreita, no canto da parede velada, estufada.

Sentado diante de meus erros, junto aos pecados, no velho banquinho da bateria, aquela mesma boa e velha companheira de outros blues, procuro uma solução para confortar minha emoção.

Na plenitude do piano, sento nu diante desta solidão devastadora, trocando acordes invertidos com minha autoestima, por solfejos filosofais, ou, alguns outros acordes diminutos. Assim, acalmo minhas dores, e resolvo minhas amarguras entre eu, e minha razão.

A solidão sempre soa a acidentes bemóis.

O oco da vida é apavorante, os grilos da noite gelada buscam me consolar neste buraco avassalador.

É meu velho blues, estou mais para um adolescente choramingante que um jovem aspirante, de vida feita, gravata e terno aprumados, embarcado, enfim, no trem da vida. Vida breve, vida imensa…

Cuidado com esta agulha da vitrola: Ela te fura se não souber manejar. No final deste lamentoso blues, vale mais um acorde a mais de Muddy Waters que uma gota de sangue a menos, por conta de um mau humor minuto a manchar o ralo carpete.

Há uma vontade de chorar. Não vou negar. E não é por causa do blues. A razão, mesmo assim, permeia qualquer evasão emocional. Sou forte o bastante, não há pranto diante a vida a alumiar, no horizonte febril, de minh’alma abatida.

‘’Há de se ter uma estrela no céu cada vez que ocê sorrir’’. É mesmo, meu caro Gil!? Adonde!?

Em que estrela, quadrante, galáxia, universo!?

Por onde foi que perdi meu sorriso torto de palhaço? De que bueiro surgiu esta melancolia? Em que cova reside o resto de alegria que deixei para aquela moça que me enfeita o coração com pulsares alegres?

Como é que eu vim parar aqui, neste lugar. Aqui, neste ‘’onde’’ que nunca chega em um ‘’mais adiante’’ itinerante?

Aqui, nu, com minhas caraminholas minhocais, vou concluindo, próximo a razão aristotélica de um eminente limiar.

No final das contas, sou eu e um piano. E o nada mais.

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