/O Punk e o fundão//

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Uma parte de mim, é contraste. A outra, equilíbrio. Ou pelo menos tenta ter algum.

No colégio sempre fui aquele que, por ordens de mamãe, sentava nas primeiras carteiras, para um melhor aproveitamento do meu esforço escolar.

Sentar na frente significava esforço, concentração, ordem e progresso intelectual. E o que passa na cabeça de um adolescente espinhento e com os hormônios borbulhando a flor da pele? Anarquia e contradição a todas as regras!

A turma da frente não era da minha turma. A minha turma todo dia comprava na cantiga esfirra de carne e Coca-Cola. A turma da frente trazia de pão com requeijão, queijo e presunto no tupperware de casa, com suco de laranja na suqueira. Eu era muito mais da geração dos enlatados. Geração Coca-Cola! Geração Coca-Cola!

Certo dia ao chegar na escola, tive meu primeiro ato de rebeldia da vida quando infligi as regras do ‘’mapeamento escolar’’ e escolhi sentar no fundão, no lugar de alguém que devia ter faltado, sei lá.

Na turma do fundão foi onde pude ser eu mesmo sem papéis nem rótulos. Aprendi a gostar de punk com meu amigo Netão Ramone, um cara um pouco maior que eu, um pouco mais velho que eu, guitarrista da banda The Anarquists! Conheci afundo sobre ideologia, principalmente o anarquismo, e claro, como zuar e receber zoação sem abalar, como ser malicioso, mas também, como ter limite.

Aprendi a apelidar os colegas (do fundão, lógico) com o nome da mãe alheia. Conheci e comecei a ouvir Ramones, Nirvana, Twisted Sisters, AC/DC, Iron Maiden e Mettalica! Pedíamos nacos de Talento, gominhas Fini, amendoins, Ruffles ou qualquer outra guloseima que tinha sobrado do intervalo, e comíamos ali mesmo, no meio da aula de história. Criávamos letras pornô-punk durante intermináveis explanações tediosas dos afluentes do rio Amazonas. Jogávamos relimporrada no intervalo, a contragosto dos bedéis, sempre preocupados em nos machucarmos com a lata amassada daquela Coca-Cola da cantina.

E enquanto esperávamos os pais, ou a perua dos amigos que moravam em São Sebastião da Grama, Caconde ou Mococa chegar, ficávamos no canto do Chicão do outro lado da calçada da escola, tirando sarro dos nerds, falando asneira, fazendo picuinha com a menina esquisita da sala, ou comentando sobre alguma complicada e perfeitinha. Falávamos muita asneira e aprendemos a ser adolescente pivete.

Claro que muito do estilo conversava de igual para igual com todas as minhas contravenções hormonais adolescentes, fétidas a suor e chulé de All Star, mas sou o que sou graças ao punk; ao estilo oposto ao sistema de notas médias da escola; a possibilidade reacionária de liberdade de expressão.

Muito do jeito que eu dou um jeito de resolver as coisas, da forma de pensar e de me defender ideologicamente, aprendi com o punk e com a turma do fundão, consegui encaminhar meu jeito de me comportar diante as atitudes na vida, mesmo que as vezes, tenha minhas librianas dúvidas.

A atitude punk me deu coragem para girar minhas baquetas de maneira correta, começar uma banda, e procurar minhas causas com minhas próprias pernas. O resto é história e muito rock and roll!


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