Era uma vez… Quentin Tarantino

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Quem gosta do que faz, coloca gosto e dedicação, para dar o seu melhor no projeto e, muitas vezes é uma constante superação, trabalho após trabalho.

Quando atinge a fama e cai no gosto de seu público, é quando ela começa a construir sua marca registrada, com elementos próprios, definidores de seu trabalho. Um símbolo, uma forma, gesto, imagem. Os melhores profissionais são percebidos de longe, definidos como o creme de la creme de sua área.

Quentin Tarantino iniciou seu trabalho cinematográfico não como um amador, mas como amante da sétima arte, quando ainda era empregado de uma loja de vídeo-locadora.

O diretor foi coletando ao longo dos anos uma cinegrafia tão única, variada e fora dos padrões blockbuster do cinema norte-americano, que o colocou em uma posição, onde tudo o que faz tem mil olhos curiosos para saber sobre o que será sua nova produção.

Agora a quase trinta anos desde sua primeira 5ª sinfonia Pulp Fiction, em seu nono longa Era uma vez em Hollywood…  Quentin cria um pastiche nonsense, com muita crítica e rebeldia com o Cinema Hollywoodiano, uma indústria rápida, ávida por novidade, astros e gêneros da vez, fazendo até sua autocrítica com a forma de fazer cinema. Por isso, posso afirmar que conseguiu, audaciosamente, criar um perfeito filme anti –Tarantino.

Diante de tantos relançamentos clássicos da era de ouro dos anos 80 voltando as telas, Tarantino prefere voltar aos anos dourados do cinema, quando ir ao cinema era um passeio moderno, mostrando o outro lado Hollywood, mas o outro lado do ponto de vista dos atores, das mudanças que tiveram de passar para se manter na fama. Ah é, e no meio deste panorama, passeia em uma linda e fotográfica Hollywood, que só existe em nossa imaginação.

Diretores renomados já usaram desta fórmula para construírem grandes clássicos: Scorcese tem a Invenção de Hugo Cabret, Woody Allen fez Café Society. A combinação de grandes diretores, gênero cinema dentro da cinematografia, é sempre reveladora nas mãos destes gênios.

Mas ele exagerou na dose, acho que sua fórmula foi longe demais. Misturou o tom de seus longas mais famosos, com ótimos diálogos, atores de primeiro calão e cartas na manga, que para aqueles que conhecem a partir de Kill Bill, sente falta de seus ases, de suas canastras absurdas, tão cheias da assinatura de Quentin. A forma de filmagem escolhida pelo diretor, diferente da marca do diretor, pesa muito o filme, com um tom muito básico, muito solar, querendo mostrar o glamour hollywoodiano, sem ter criado um clima para tanta claridade. Há uma experimentação de roteiro e direção, revelando um diretor querendo se livrar da precocidade em seu estilo no geral, que transforma a experiência cinematográfica tragicamente, atrapalhando o andar do filme.

Por três longas, seus filmes são do mesmo gênero, faroeste, todos ao estilo de Tarantino, com sua assinatura forte na trilha sonora, no enquadramento, na fotografia, em todos os quesitos técnicos de cinematografia, menos neste.

Infelizmente, para o público geral, exige um certo conhecimento dos fatos abordados no longa, nos personagens reais, ali retratados. Acho surreal assistir a um filme, que se faz importante reconhecer algumas referências para entender seu sarcasmo.

Nas artes plásticas, é interessante ter o conhecimento do assunto para apreciar melhor uma obra. Na sétima arte, passa a ser vertigem.

Tarantino não se importa com nada disso, aliás, marola o filme todo, ou seja, estende o que quer dizer, filmando para si mesmo, prestando atenção ao redor de todos os personagens, dando espaço a construção de personagens, em cenas muito extensas e contemplativas, sem nenhuma questão em mostrar sua assinatura no filme, como sempre dirigiu.

Já Brad Pitt e Leonardo DiCaprio, que estão novamente no foco das câmeras do diretor, com ótimas performances da dupla. Pitt reprisando seu famoso papel de bonachão, com pinta de Clark Gable, e DiCaprio como um galã western decadente, já em fim de carreira, querendo ainda provar seu valor no mercado cinematográfico.

Como Federico Fellini colocou Marcelo Mastroianne no papel do próprio diretor em 8 e ½, se auto interpretando, Quentin jogou todo este peso nas costas de Leonardo DiCaprio, em um papel que explora o psicológico do personagem, em busca de uma solução, enquanto que Pitt é o outro lado de Tarantino, mais sanguinário, na violência psicopática com muitas referências a Taxi Driver de Martin Scorsese.

Deixando a cereja para o final, apesar de todos os prós, contras, ações e cortes, Tarantino trouxe a tela sua carta de amor ao cinema, com uma visão peculiar, (por isso que é um filme com a assinatura de Tarantino) de um tema muito revisitado por outros longas, que é a Hollywood que esconde segredos nos bastidores.

É o melhor filme de Tarantino? Não é, mas é uma tentativa bem-sucedida, com muitos espaços em branco no meio, ele sai de sua zona de conforto do seu modos-operante de fazer cinema, demonstrando outras habilidades do diretor e que, depois de tantos filmes mostrando explicitamente tanto sangue, agora se permite experimentar novas formas de contar suas histórias.
O Cinema, afinal, também é feito de boas histórias.

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