E o palhaço, quem é?

0
233

O cinema ultimamente está melhor para os fãs dos quadrinhos do que para os cinéfilos. Teve Capitã Marvel, Hellboy, o tão aguardado final de Vingadores Ultimato, Homem Aranha, a volta de Hellboy e o surgimento de Shazam para a telona, enquanto que o cinema-arte anda bem apagado. Até Meryl Streep tem apostado mais em séries da Netflix do que em filmes.

A incógnita, no entanto, estava depositada em Coringa por ser mais uma adaptação de um dos maiores vilões das HQs de todos os tempos. Por que o estúdio apostaria em mais uma adaptação, depois de um sucesso como foi o Esquadrão Suicida? Ou na adaptação de Mulher Maravilha e Aquaman?

Para muitos a invasão nerd nas telonas é resultado de uma crise de bons roteiros, e que rouba uma grande fatia do mercado, numa onda de grandes filmes blockbusters para nossas sessões da tarde.

A resposta está em cartaz nos cinemas como um dos melhores filmes do ano, sem querer puxar a sardinha para os nerds de plantão, aqueles fãs da DC Comics, Marvel e Turma da Mônica. Coringa apostou em uma fórmula madura, até então não experimentada nos filmes deste universo, que exala a popularidade blockbuster. Talvez seja esta a razão pela qual os estúdios cinematográficos estão fazendo com tanto esmero todos estes filmes.

Antes das opiniões, há de ser relembrado o fato de que foram os cinemas os responsáveis por manter erguido o império das fábricas de quadrinhos Marvel e DC Comics, uma vez que no começo dos anos 80, videogames e televisão começaram a ser mais atraentes do que gibis com histórias de playboys que se fantasiam de morcego no calar da noite e cientistas malucos que, ao terem raiva, ficam verdes como chuchu.

Vale dizer também que o mais legal do Batman não é Bruce Wayne, mas sim seus vilões devido à história por trás da vilania de cada um. Enquanto a Marvel cria vilões a partir de cientistas cujos experimentos não deram certo, a grande maioria dos vilões da DC, e no caso do Batman, todos seus vilões são marginalizados socialmente e procuram seu espaço, o que diríamos enquanto crianças: “Os vilões querem vingança”.

Pinguim sofreu bullying por ser fisicamente diferente. Hera Venenosa foi injustamente jogada em plantas exóticas tóxicas diante da morte. Duas Caras foi traído por sua esposa e descontou em toda a sociedade. Há muitos exemplos de vilões socialmente perturbados do que a vã sabedoria dos mafagarfinhos pode explicar.

O Coringa é o vilão mais bem escrito das HQs, inspirado no bizarro longa “O homem que ri”, dirigido por Paul Leni e interpretado por Conraid Veit, um bizarro e perturbador filme do cinema mudo de 1928 sobre um palhaço sem voz.

Os opostos se atraem, e no caso de Batman e Coringa, há uma química intrigante de se perceber. Existe um equilíbrio descompassado de forças entre os dois personagens. Eles não se completam como água e vinho e a química não poderia ser melhor para os fãs. Coringa e Batman foi, é, e sempre será, a mais letal relação entre herói/vilão, com forças que não se igualam, nem se repelem e, por isso, nunca acabam. Um não pode morrer enquanto o outro viver, por isso, são eternos.

Assistimos este embate com uma interpretação pastelão, na série dos anos 60 com César Romero, e nem por isso deixou seu legado. Por seu pioneirismo, hoje também é considerado um clássico. Na sequência, no primeiro longa do morcegão de Tim Burton, em 1986, com o grande Jack Nicholson no papel, com traços mais cartunescos, buscando uma maluca comicidade mafiosa na interpretação do personagem.

Depois de longo tempo, foi a vez de Heath Ledger dar um toque anárquico, abrilhantando com um toque único a tudo o que já conhecíamos antes na formação do personagem. Algo maior trouxe algum sentido ao que o Coringa merecia enquanto personagem. Enfim, uma construção psicológica, acredito que digna ao que o personagem sempre pediu. Para este que vos escreve, foi a melhor interpretação já feita do icônico vilão.

Jared Leto, em 2016, manchou o rosto de palhaço, como se reciclasse o Coringa de Jack Nicholson em versão chefe da máfia. O Coringa dele foi mais um gangster que parece o Coringa do Batman do que a verdadeira essência loucamente eloquente do personagem.

Mas eis que surge o filme solo do palhaço, Coringa, desta vez interpretado por Joaquim Phoenix, que entrega uma interpretação tão profunda a essência do personagem que incomoda, perturba, desnorteia quem assiste.

Se achávamos que Thanos havia sido o melhor vilão construído desde Darth Vader, com um personagem bem escrito em sua vilania, demonstrando propósitos, emoções reais, dignas de alguém que busca finalizar seu destino, cumprir sua tarefa, fora a enorme carga emocional que carrega, é melhor continuar achando, pois ele foi o melhor personagem construído, até Coringa estrear.

O famoso palhaço-psicopata agora tem uma construção com caráteres filosóficos, psicológicos, sociológicos, dialoga com a nossa própria experiência social, demonstrando as fragilidades dos reprimidos da sociedade nas faltas de condições, na falta de espaço a quem tem limitações psicológicas.

Coringa aponta o dedo para nós em nossa egoísta cegueira social. O longa do anti-herói revela as desastrosas consequências do que deixamos de fazer por não nos colocar no lugar do outro.

Toda esta mensagem está nas entrelinhas, em um longa marcado por momentos tensos, perturbadores e violentos, sendo que não é a violência pela violência como nos filmes de Quentin Tarantino. Aqui é uma justificável resposta a repressão social do personagem.

Nunca havia tido uma obra prima dos quadrinhos para o cinema, Coringa é a ‘carta fora do baralho’ para esta afirmativa. Um filme maduro, interessante enquanto história de HQ, enquanto obra cinematográfica e uma forte reflexão diante da sociologia atual.

Nada melhor do que comemorar os 70 anos do Cavaleiro das Trevas com uma homenagem à altura de seu maior vilão.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here