Você gosta de adular ou de ser adulado?

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A observação da propensão a adular põe em relevo dois tipos psicológicos bem definidos: o que adula para conseguir vantagens e o que adula para ser adulado.

O primeiro item dessa classificação se refere a indivíduos que, sem méritos próprios e muitas vezes com acentuada falta de escrúpulos, buscam suprir sua condição precária com uma fingida submissão aos superiores ou a outras pessoas de quem esperam algum benefício, adulando-as e procurando mostrar-se ante elas –  quantas vezes mediante intrigas ou enredos –  como únicos capazes de serem tidos em conta. O segundo item define os traços do ególatra, do fátuo, e nos evidencia a pobreza moral dos que necessitam da adulação e a buscam, distribuindo lisonjas e elogios em torno de si, a fim de que esse favor lhes seja retribuído.

A classificação precedente revela as raízes desta propensão, ou seja, as causas de onde ela provém, o que ilustra sobre a importância de dedicar-se à tarefa de extirpar tais raízes, já que disso depende que a propensão a adular desapareça ou se robusteça com o tempo, somando-se como deficiência às demais.

A propensão a adular, inofensiva quando não excede o grau de tolerância 

que as maneiras corteses lhe outorgam,

degenera – ao se tornar hábito – em hipocrisia ou falsidade, pois o adulador vê tudo através dos objetivos de um pensamento que se traduz em especulação, vantagem, conveniência.

A adulação, a lisonja, a bajulação – destacamos isto –, nada têm a ver com a admiração, os gestos aprobatórios ou a emotiva gratidão que as palavras, os pensamentos e as obras de uma pessoa possam suscitar na alma dos seres. Nesse caso, a manifestação de aplauso é um dever e de modo algum afeta o conceito de quem, com desprendimento pessoal, a recebe; no outro caso, e aqui nos afastamos das manifestações que obedecem a desdenháveis motivos de interesse, o aplauso é um simples compromisso, que se cumpre para estar de bem com os convencionalismos, e prejudica unicamente a quem abusa dele, tanto ao oferecê-lo como ao desfrutá-lo.

Mencionaremos de passagem, e tão-só para destacar os caprichosos contrastes que a psicologia humana oferece, o caso daqueles que, gostando de ser adulados, são incapazes de adular, pois, impedidos por pensamentos mesquinhos, nem sequer por razões de cortesia podem ponderar um mérito nem oferecer a alguém uma palavra de aprovação.

O homem íntegro, o que conquistou por seu próprio esforço um lugar de honra entre seus semelhantes, é refratário à adulação, a qual, queira-se ou não, rebaixa o valor ético das pessoas que com ela se deleitam.

Quem deseje apagar de sua vida a propensão a adular, busque sempre a forma mais agradável, natural e sincera de manifestar a opinião e o sentir reclamados pelas circunstâncias. E se, além de adular, gosta de ser adulado, recorde que a consciência do próprio valor contribui com toda a eficácia para anulá-la.
Texto extraído do Livro Deficiências e Propensões do Ser Humano, pág 164

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