Prometer é contrair uma responsabilidade

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A propensão a prometer revela falta de seriedade e de consciência perante a responsabilidade contraída ao se fazer uma promessa.

Compreender-se-á que nos referimos aos que tendem a abusar dela, ou a usam com tanta prodigalidade que põem em relevo, o pouco que se comprometem com seu cumprimento. Entre estes, destacamos os que prometem muito com mentirosa suficiência, e só para se atribuírem importância; os que se valem da promessa para ocultar a própria inoperância; os que voluntariamente se sobrecarregam de compromissos para se proporcionarem, com isso, um prazer. Em cada um desses casos, a pessoa sabe de antemão que vai defraudar as esperanças do próximo, o que denuncia sua grande irresponsabilidade e o pouco que lhe preocupa evitar que os demais o censurem como ele merece.

Algumas pessoas prometem por uma disposição natural que as faz parecer obsequiosas, amáveis e dispostas e todo o momento a se colocarem a serviço do semelhante; entretanto, em que pese a boa intenção que as anima, nem sempre conseguem que sua vontade lhes responda no momento de dar fim ao que prometem, ou não podem cumpri-lo por carecerem de recursos. Observamos nesse caso que a causa do excesso reside numa imperdoável atitude de brandura com respeito à responsabilidade de prometer, e fazemos notar o muito que se ganharia com o simples fato de ser mais prudente e contido.

A propensão a prometer anda de braço dado com a irresponsabilidade,

e não são poucas as vezes em que é sustentada pela vaidade.

Mas também costuma ser respaldada pela audácia, circunstância esta que agrava a situação do indivíduo, o qual faz da promessa um meio para surpreender a boa-fé do próximo em seu próprio benefício. Assim é a posição de quem planeja um negócio enganoso e o difunde para atrair os crédulos, que recorrem a ele sonhando em aumentar suas economias.

É frequente que se consinta a manifestação desta propensão, sem reparar que, por suas consequências, ela representa uma carga inútil que gratuitamente o ser assume, às vezes só por um equivocado afã de oferecer ajuda.

A lembrança do compromisso que não se cumpre pesa depois sobre o ânimo, em parte porque soma uma preocupação a mais às que angustiam a vida, e em parte porque nunca é grato ao “desmemoriado” que suas promessas lhe sejam recordadas ou que se lhe exija o cumprimento delas.

Os que fazem da promessa uma espécie de indústria pessoal estão, longe de conceder valor a sua palavra, apesar de pretenderem que os demais o concedam. Ignoram que a palavra empenhada contém algo de nossa vida futura e que, passando o tempo, quando esta nos demandar o cumprimento dessa palavra empenhada, colocar-nos-á diante de uma realidade: a de nos sentirmos donos de tal palavra ou carentes dela, por havermos desconhecido seu valor.

Texto extraído do livro Deficiências e Propensões do Ser Humano, pág. 170

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