Causos do quotidiano

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O sujeito (im) previdente
O casamento deles não ia bem. Tanto é que a separação foi consensual, sem maiores dramas. Cada um para seu lado, e pronto.
O homem, trabalhador dos bons, logo se ajeitou com outra, que o ajudava muito em suas vendas e compras. O negócio ganhou vulto, tudo ia de vento em popa.
Ideia inevitável: comprar uma casa, nada de continuar pagando aluguel pelo barraco na avenida, onde antigamente os trens passavam.
Escolhida a casa, bateu nele a dúvida cruel: se o imóvel fosse registrado em seu nome, sua legítima mulher poderia pleitear metade dele, no caso de falecimento do ainda legítimo marido.
Solução que lhe ocorreu numa noite de insônia: colocar a atual companheira como proprietária única da casa.
Não houve mesmo problema, enquanto ela, a companheira, não resolveu morrer, assim sem mais nem menos. Morreu sem ter ficado doente, coisa de infarto fulminante.
Ele chorou muito aquela morte fora do programa; menos, porém, de quanto chorou ao receber dos irmãos da falecida a intimação. Que saísse logo da casa, legitimamente herdada da pranteada irmã!
               

                        Método infalível de fechar negócio enrolado
O protagonista deste causo, filho único, cheio de mimos e afagos, não se deu bem no casamento. Sentiu muito a morte prematura do pai, e menos a morte anunciada da mãe. Herdou umas coisinhas, mas, principalmente, a boa casa da família.
Nem será preciso dizer que, viciado no jogo, achou muito natural vender a casa, que compradores não faltavam.
Fechou negócio a prestação com um sujeito bom pagador, que só pôde comprá-la em dez pagamentos. O preço final foi acertado.
Pagas as dez promissórias, que saíram pelo ralo nas mesas de jogo, chegou a hora de se passar a escritura.
Eu só passo a escritura se você me pagar o valor de mais uma prestação…
O comprador, temeroso de perder o dinheiro e o bom negócio feito, submeteu-
se à vontade do vendedor, tomando dinheiro emprestado a um tio.
Na hora de passar a escritura, outra exigência:
Eu só passo a escritura se você me pagar outra parcela…
O comprador achou aquilo um desaforo e foi se aconselhar com o tio financiador.
Pode deixar comigo. Vou falar com aquele safado.
Quero falar com você.
Agora eu não posso, estou numa parada grossa.
Não pode? Pode sim! Se não for por bem, vai a chicotadas.
E bateu com um grosso rabo de tatu na mesa de jogo, espantando os parceiros, espalhando fichas e esparramando cartas para todos os lados.
E lá se foi o nosso herói caminhando pelas ruas, sempre acompanhado muito de perto pelo seu algoz, de rabo de tatu em punho, e em cima de vistoso cavalo.
No cartório, em completo silêncio, nada mais exigiu e assinou depressinha a escritura de compra e venda de imóvel situado na rua tal, número tal.

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