Ver e prever

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Foi meu amigo Elias José, grande professor,  grande contista e grande poeta, que sintetizou em belo poema: para se escrever algo de geral agrado, tem-se de mostrar ao leitor o que está gratuitamente à sua vista e, no entanto, perfeitamente imperceptível a seus olhos acostumados a apenas ver o que os outros querem  que veja.

Isso quer dizer que a poesia –  não necessariamente em verso –  precisa ensinar a quem lê, realidades ou ficções simples como:

Olhar as coisas e descobrir: o avesso, o aviso, a fenda, o fundo, o engenho, o engano.

Olhar os livros e descobrir: o claro, o oculto, o culto, o definível, a dúvida, o decifrável.

Olhar os amigos e descobrir: o afeto, o aflito, o fácil, o afoito, a manha, a mão.

Olhar no espelho e descobrir: o tempo, a têmpera, a marca, a máscara, o mesmo, o outro.

Você pode até se gabar de nem precisar de óculos. Acha que enxerga bem, mas não é esse tipo de visão  que desejo ressaltar. A visão ótima, num sentido mais profundo, há de implicar também a boa audição, o bom faro, o bom tato, o bom paladar e, indispensável, o sexto e crucial sentido – a intuição.

A nossa luminosa Cecília Meireles, que entendia muito das vibrações da alma e do corpo, alerta-nos sobre nossa pretensão de enxergarmos. Diz ela: nós, que nos amamos tanto, que nos admiramos tanto, a quinhentos metros nada somos para os outros. A essa distância, aparentemente pequena, perdemos todos os nossos traços pessoais, os nossos gestos, a nossa individualidade. A quinhentos metros, tornamo-nos mudos, informes, irreconhecíveis  para quem quer que seja. Manchas ambulantes ou estáticas, nada mais.

Quinhentos metros.  Cecília deve ter criado seu belo texto num momento de otimismo, conquanto nos queira advertir das inocuidades, fatuidades e equívocos embutidos no próprio e simples ato de viver.

É neste aspecto que investi no tema. Olhamos, forçamos a vista. Tentamos enxergar com clareza; por vezes, mal divisamos.

Entendeu? Se não, paciência. Nem por causa disso o mundo mudará, minimamente.

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