FUTEBOL E TEATRO

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FUTEBOL
Enquanto hoje a invasão de termos ingleses avassala o português do Brasil, no mais popular esporte se deu uma boa e correta nacionalização, quer pela adaptação fônica dos termos, quer pela criação de bem-aceitas formas na tradução. Assim ocorreu com escanteio ou tiro de canto, em lugar de corner; com impedimento por offside; com lateral por outside.

Pênalti merece mais atenção. Este termo futebolístico vem do inglês penalty, nada mais do que acomodação do vocábulo latino poenalitate. Dever-se-ia, desde a introdução do nobre esporte bretão entre nós, ter usado penalidade. Foi algum locutor esportivo de bom-senso que, muito mais tarde, cunhou a expressão penalidade máxima, que hoje convive pacificamente com o termo inglês aportuguesado na grafia. Em Portugal esse castigo maior se chama tiro de rigor. Nos campos de além-mar a nomenclatura esportiva nos causa bons motivos de riso. Lá, a meta, o local onde se quer meter a bola para marcar um gol, chama-se porta, o que leva inevitavelmente o nosso goleiro a ser tratado como porteiro. As camisetas que os jogadores usam, com o emblema e as cores de um clube, lá são as camisolas. Ora, pois. Ninguém por lá consegue um gol, mas um golo, dois golos, com ô.

Esta palavrinha mágica também é de origem inglesa – goal, assim como seu último defensor, o goal keeper, que nos nossos tempos de campinho do Rio Pardo F.C. virou gorquipa e depois goleiro.
As gramáticas e os gramáticos sofrem muito com o tal gol. Nós pronunciamos tanto o singular como o plural à inglesa, mas adaptamos a grafia: gol, gols. Acontece que nenhuma palavra portuguesa terminada em l faz plural em ls. Não é da índole da nossa língua. Há quem aconselhe a escrever e a dizer-se goles, com o o fechado. Dificilmente essa sugestão erudita pegará. Não tendo acento diferencial, o tal goles (ô) se confundiria facilmente com o plural de gole, no sentido de trago. Ficaria impagável um jornal anunciar que Fulano, depois de ter tomado uns goles (ó), deixou passar três goles (ô).

Não é nenhuma questiúncula de linguagem que me trouxe ao pênalti, mas sim a diferença profunda do tratamento dado a um batedor que erra sua execução ou a um goleiro que o defende. A angústia do goleiro é muito maior, mas não defender o pênalti é o esperado. Já o batedor tem outro destino: marcar o gol de pênalti não passa de obrigação elementar sua. Falhar, ao contrário, significa que não merece o salário que ganha. Um sujeito que perde um chamado gol feito, é um fracasso. O que erra um pênalti vai para a categoria de traidor. Lembram-se do Baggio, na final da Copa de 94, entre o Brasil e a Itália? Bateu muito alto um dos tiros livres da decisão e acabou entregando o tetracampeonato ao Brasil.

Demorou mais de ano para se recuperar do trauma psicológico de tamanha falha. Lembram-se do pênalti que Marcos defendeu numa partida entre Palmeiras e Corinthians pelas semifinais da “Libertadores da América”? Corinthiano algum esquece.
Corria de boca em boca o sábio conselho que um presidente de clube local dava aos chutadores de pênaltis, muito antigamente:
— Chutem no canto, rasteiro e com força…

Defender quem há de?
Mas a reflexão mais profunda que alguém já fez sobre a missão de cobrar um pênalti é da autoria de um filósofo popular do Rio de Janeiro, o falecido Neném Prancha:
— Pênalti é uma situação de tanta responsabilidade, que quem deveria batê-lo é o presidente do clube!

PEDRO BLOCH, MÉDICO E ESCRITOR
Pouco se fala hoje dele, o teatrólogo brasileiro mais representado no exterior, mais do que Nélson Rodrigues, Dias Gomes ou Joraci Camargo. Pedro escolheu ruim época para morrer – em plena semana de preparativos para um carnaval.
Ucraniano como Clarice Lispector, veio para o Brasil com oito anos (1922), formou-se médico e especializou-se pioneiramente em fonoaudiologia, sendo o responsável pelas boas falas de Roberto Carlos, Chico Anísio, João Gilberto, Gal Costa.
Grande sucesso foi Dona Xepa, a lutadora mãe de família que só ia às compras da feira no final do expediente dos feirantes, para pagar bem menos pelas sobras (= xepa) de verduras e hortaliças. Sei do caso de uma culta e gentil senhora aqui da cidade que, em outros tempos, também ia fazer a feira no Mercado depois das dez da manhã, quando muitas bancas já nem funcionavam mais. Por muito tempo, ganhou o sugestivo apelido de Dona Xepa.

Nenhum texto de Pedro Bloch viajou tanto pelo Brasil como As mãos de Eurídice, monólogo de onde se originou a fama nacional de Rodolfo Mayer, que de cidade em cidade recontava sozinho com sua voz de veludo a triste história de uma Eurídice que não suportou a vida desregrada e muito louca de um sujeito viciado no jogo, na bebida e o abandonou. Acabou sendo morta por ele. Vi e ouvi Rodolfo Mayer matar Eurídice aqui mesmo em São José, no antigo Pavilhão XV de Novembro, nos recuados tempos em que a cidade não ficava tão à margem de excursões que artistas consagrados faziam pelo interior paulista.
Bloch escreveu mais livros, dentre eles um em que recolhe os pensamentos de crianças atendidas por ele como médico. O mais delicioso conta a surpresa da menininha ao ver uma pá mecânica limpando os últimos vestígios de casa demolida. Comenta com o pai:
— Olha, papai, estão acabando de construir um terreno!

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