A Rocinha

0
526

Ela persistia, não faz muito tempo, no início da Rua Marechal Deodoro, caminho do bairro João de Sousa.

A rocinha era o privilegiado quintal da casa de meu sogro.

Para se chegar a ela, desde remotas eras havia dois caminhos, o natural e o oficial. Pelo natural, a gente se enfiava por entre fechadas moitas de um bambuzinho miúdo, desses que dão varas para pescar, vencia um barranco em declive, atravessava a pé o córrego, e pronto. O caminho oficial era muito mais complicado e acessível apenas aos íntimos da família. Uma vez nos fundos da casa e aberto por meu sogro o portão encravado no muro alto, descia-se uma escadinha esculpida no barranco, transpunha-se uma pinguela e chegava-se à rocinha.

O muro do quintal tornou-se o símbolo do cuidado e da autoridade paterna. Meu sogro, singular mistura de homem caseiro e de boêmio bem-comportado, tinha um desproporcional e permanente medo daquele riacho. Por isso, no local em que o terreno começava a declinar acentuadamente, ele, para sossego seu e salvaguarda dos filhos ainda pequenos, mandou erguer o muro, enquanto o portão era sempre mantido fechado. A chave, ele a levava sempre consigo, estivesse trabalhando no Banco F. Barreto, estivesse em suas inocentes incursões musicais, as tocatas com os amigos, à base de violino, violão e flauta. Se as crianças fossem esperá-lo abrir espontaneamente o portão, bem poucas vezes teriam ido à rocinha. Daí o caminho natural ser muito concorrido. Daí o muro saltado com crescente freqüência e desembaraço.

Lugar verdadeiramente cordial a rocinha, com seu jambeiro perfumado, suas mangueiras, bambual e eucaliptos. Amarrada por corrente a um tronco da margem e por isso sobrevivendo a tantas enchentes, a pinguela era sempre abrigada por bambus altíssimos que, atritando-se em patriótica profusão de verdes e amarelos, emitiam um grave, perene som ligado na memória a banhos de rio, a meninice. As impressões guardadas por quem brincou na rocinha são profundas e várias. Além do murmúrio do bambual e da renovada beleza do inesperado trem apitando tão próximo, com a locomotiva cinzenta envolta em enérgicas lufadas de vapor, havia ainda o ruído fofo e metálico de todos aqueles pés pisando as folhas lisas e secas de bambu, que cobriam todo o chão.

Mas o principal da rocinha talvez residisse em sua paz sombreada. A gente chegava e logo sentia crescer uma secreta vontade de fi car. Havia muitas árvores, já disse. Pescava-se às vezes: lambaris com peneiras domésticas; cascudos nas locas, com as mãos. Nadava-se no calor, em um poço tornado mais profundo à custa de uma instável barragem de pedras, troncos e folhas cercando a correnteza. Trampolim?

O ombro de um companheiro ou o próprio barranco, sempre mais escorregadio, tantos os pés molhados que o pisoteavam.

Entre a incredulidade e o sorriso dos espectadores, posso rever meu sogro indo pescar bagre, no lusco-fusco da tarde.

Apesar de tudo tão perto, tão familiar, ele partia munido de lanterna, envergando um surrealista salva-vidas de cortiça, amarrado a sério em redor do corpo. E tudo para enfrentar de cima da pinguela um pobre riacho, o nosso corguinho – que dava água pela canela, como se dizia com menosprezo.

O momento quem sabe mais glorioso da rocinha foi o dia de nosso casamento. Em seus vastos espaços, numa tórrida manhã de janeiro, foram espalhadas muitas mesinhas e servidos os convidados.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here