Entre o céu e o inferno

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Gostei de uma história que corre por aí e que fala das dúvidas de um senador recém-falecido entre optar pelo céu ou pelo inferno como sua definitiva morada, como se isso fosse mera decisão humana.

Um anjo foi encarregado por quem de direito de mostrar ao ilustre pai da pátria as belezas e as sublimidades do céu. O senador foi levado a sentir a paz e a tranquilidade reinantes. Viu homens e mulheres tangendo cítaras em nuvens róseas; entendeu a beatitude das almas felizes, libertas da carga terrível dos corpos que fazem da vida terrena um vale de lágrimas.

Não quis, porém, o experimentado homem público fazer sua opção definitiva sem antes exercer o direito de saber como era o inferno. Tendo por cicerone um diabo muito amável, desceu às profundezas e ficou agradavelmente surpreendido com o que lhe foi dado ver. Primeiro, quase todos os seus parentes, amigos e colegas estavam por lá e o receberam com júbilo, levando-o a festas mil, a coquetéis infindáveis, a finos restaurantes, a casas de diversão, a espetáculos deslumbrantes de luzes, cores e, naturalmente, calor.

À vista da beatitude meio repetitiva do céu e da movimentação frenética do inferno, o ilustre homem público cravou a segunda alternativa. Deram-lhe, então, magníficos aposentos, onde passou inesquecível noitada. Que coisa maravilhosa o inferno!

Na manhã mal despontada, ele pulou da cama, ávido por aproveitar desde logo as muitas delícias disponíveis nos domínios de Mefisto.

Triste decepção. Tudo estava mudado. Nada de esfuziante alegria, nada de ver os colegas se esbaldando em infindas delícias. Só tristeza, escuridão, fealdades, lamentações.

Não teve dúvida. Revestido da ainda restante autoridade de representante do povo, apresentou queixa formal a seu cicerone, agora não mais amável nem atencioso. Todas as suas ponderações foram ouvidas em silêncio, até que o capetinha lhe explicou em poucas palavras:

– Meu caro, você foi político, sabe como é. Ontem o tratamos como os candidatos tratam os eleitores. Hoje não. Hoje você já votou…

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